A música de Chico Buarque

Francisco Buarque de Holanda é, reconhecidamente, um dos maiores compositores brasileiros de todos os tempos. Começou como sambista galanteador e hoje é um dos maiores nomes da MPB, conhecido internacionalmente. Aí vai um top 10 das melhores músicas de Chico Buarque:

10 -A Banda (Chico Buarque de Hollanda – 1966)

“A Banda” foi a primeira música de Chico Buarque a fazer sucesso – venceu o Festival de 1966 – e foi proibida de modo arbitrário, como muitas outras de Chico. O sambinha simples, sobre a passagem de uma banda por uma cidade, simboliza o momento em que os acontecimentos se convertem de História para história, ou seja: o momento em que cada pessoa particulariza o significado do acontecimento histórico. Ficou tão conhecida que até pessoas que não conhecem muito Chico Buarque sabem sua letra de cor.

9 -Pedaço de Mim (Ópera do Malandro -1979)

Uma das mais poéticas composições de Chico Buarque.  “Pedaço de mim” tem algumas das melhores definições do sentimento da saudade amorosa em versos: “A saudade é o revés de um parto/ a saudade é arrumar o quarto/ de um filho que já morreu”, ou então a fabulosa definição: “A saudade dói como um barco/ que aos poucos descreve um arco/ e evita atracar no cais”.

8 – Vai Passar (Chico Buarque – 1984)

Esta música, feita no final da ditadura, retoma a história recente do Brasil na forma de um samba-enredo de Carnaval. O tratamento jocoso dado aos líderes do regime militar, combinado à “alegria enfurecida” do fim da repressão, podem dar a impressão de uma música apenas animada com temas fortes. Mas a passagem que diz “passagem desbotada na memória/ das nossas novas gerações” pede ao público que se lembre que os maus momentos pelos quais passou o Brasil nas mãos dos militares não podem ser esquecidos – e é o que tem ocorrido, como no episódio da “ditabranda” da Folha de S. Paulo. Enfim, uma música genial.

7 – As Vitrines (Almanaque – 1981)

O álbum em que está essa música não é um dos mais brilhantes de Chico Buarque, mas é uma das grandes composições do artista. Sobre um amor visto fora da realidade, trabalhada na visão de cinema e vitrines.  “Na galeria cada clarão é como um dia depois de outro dia/ abrindo um salão/ passas em exposição/ passas sem ver teu vigia/ catando a poesia/ que entornas no chão”. Parece-se com Baudelaire, em seu soneto “A uma passante”.

6 – Cotidiano (Construção – 1971)

A música trata do dia-a-dia de um trabalhador qualquer, que se lamenta da rotina e da opressão sofridas pelo trabalhador, que só encontra algum alívio no amor de sua esposa. Mas mesmo esse alívio faz parte da realidade burocratizada que o trabalhador vê todo dia. A repetição dos versos e dos temas cria a impressão de claustrofobia social que toda a letra sugere, além de não mostrar uma saída (“e me calo com a boca de feijão”). Uma das músicas mais conhecidas de Chico Buarque.

5 – Olhos nos Olhos (Meus Caros Amigos – 1976)

Nesta música Chico Buarque atinge o ápice de sua compreensão da alma amorosa feminina. Em composições como “Com Açúcar, Com Afeto”, isso já estava claro. Mas “Olhos nos Olhos” posiciona com extrema complexidade a presença das inúmeras paixões dentro de um sentimento: nostalgia, saudade e amor, mas também raiva, despeito e carência. A música embala todos esses sentimentos com cordas, mostrando que Chico aprendeu muito com seu “maestro soberano”, Tom Jobim.

4 – O Que Será (À Flor da Pele) & O Que Será (À Flor da Terra) – (Geraes [Milton Nascimento] & Meus Caros Amigos – 1976)

A melhor música dentre as parcerias de Chico Buarque com Milton Nascimento na verdade é duas: as partes se completam e é impossível dissociar uma da outra. “O Que Será” lida com a imprecisão das coisas, mas tem um recado político claro para quem sabe ler. A definição d’O que será” é feita por oposição negativa, confundindo o ouvinte. A primeira parte está no disco de Milton Nascimento, “Geraes”, e a segunda em “Meus Caros Amigos”. A primeira é mais lenta, a segunda é rápida e urgente. A primeira poderia ser chamada de existencial, e a segunda de social, ao se ver as letras de cada uma.

3 – Corrente – (Meus Caros Amigos – 1976)

Chico Buarque se supera nesta composição. A presença dos metais torna o seu samba extremamente elaborado, em consonância com a ótima letra. Toda metalingüística, pois fala do próprio samba, “Corrente” cria uma corrente mesmo: a repetição da letra se dá no encadeamento rítmico das estrofes, reconstruindo o sentido fechado de cada uma delas. O final, em que duas ordens diferentes dos versos se misturam, evidencia o processo de composição em que os sentidos se completam como elos da mesma corrente.

2 – Construção (Construção – 1971)

Considerada a mais poética das composições de Chico por muitos, “Construção” trabalha o tempo todo com decassílabos e um ritmo crescente, com a entrada de metais furiosos aos dois minutos. Além disso, o grande ganho poético da letra: todos os versos terminam com palavras proparoxítonas, que são trocadas durante a repetição da letra. Ao intercambiar as palavras, Chico alcança outros sentidos com seus versos, compondo uma visão impressionante e complexa de um acontecimento banal, mas cheio de crítica social: a morte de um operário.

1 – João e Maria (Box Construção – 2002 [várias outras gravações anteriores têm a música])

A música não está em nenhum dos discos famosos de Chico Buarque, mas é uma das mais conhecidas do compositor. Entra no terreno do onírico e fantasioso, mas sem deixar de lado as marcas registradas do artista carioca: o amor, a política e a maestria formal. A música, embalada por violão e flauta, tem uma letra de rara beleza. “Agora era fatal/ que o faz-de-conta terminasse assim/ pra lá deste quintal/ era uma noite que não tem mais fim/ pois você sumiu no mundo sem me avisar/ e agora eu era um louco a perguntar/ o que é que a vida vai fazer de mim.”

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