A INDISCIPLINA NAS ESCOLAS

A INDISCIPLINA NAS ESCOLAS

Conceito, Características e Formas de Ação.

Prof. Iolando Meneses

Neste início do século e, asseguradamente nas próximas décadas, um problema consideravelmente complexo que será vivenciado pela escola é a indisciplina. Desde o final dos anos 90 que essa questão tem sido debatida nos Congressos Pedagógicos, mas de forma ainda muito isolada e sem a repercussão que o tema requer. Afinal o que é indisciplina? E disciplina? Onde se manifesta? Quais as perspectivas de ação?

Este texto não pretende ser um relato de pesquisa, nem deseja encerrar o assunto que é tão complexo e tantas são as variáveis inerentes. O objetivo principal é sugerir uma reflexão sobre o tema, a partir da literatura disponível, não somente por parte dos professores e educadores, mas principalmente por parte dos coordenadores, diretores, dos donos de escolas, da comunidade escolar e também das famílias.

A indisciplina na sala de aula e na escola tem sido uma preocupação e tema de conversas em sala de professores, nas diversas instituições de ensino. Ela se manifesta no corredor, durante os intervalos, na sala de aula, nas visitas, nos eventos da escola, na entrada e na saída, etc. Manifesta-se através das conversas paralelas, na dispersão durante a aula, através da não participação, quando o aluno não traz o seu material, quando usa boné, ou CD player durante a aula, quando sujam as cadeiras e paredes, quando querem ir toda hora ao banheiro, quando não vão de uniforme à escola, ou mais seriamente através da manifestação da violência, do tráfico de drogas, furtos, portes de arma, etc. Todas estas manifestações perturbam o educador e toda a conjuntura escolar, mas se compararmos esta indisciplina com a indisciplina social – como fome, mortalidade infantil, desemprego, corrupção, assalto, seqüestro, neonazismo, violência no transito, pichações, depredações, lixo no chão, extermínio de crianças, impunidade, etc. – a indisciplina escolar não se parece tão grave. (VASCONCELOS, 2000)

Um entendimento suficientemente amplo do conceito de indisciplina escolar integra diversos aspectos, não estando, portanto restrito apenas à dimensão comportamental. Podemos situá-lo no contexto das condutas dos alunos nas diversas atividades pedagógicas dentro e fora da sala de aula, sob a dimensão dos processos de socialização e relacionamentos que os alunos exercem na escola e ainda no contexto do desenvolvimento cognitivo dos alunos. (GARCIA, 1999)

A disciplina tem seu conceito quase sempre associado à obediência, o que não é a definição mais adequada, pois a disciplina na realidade significa a capacidade de comandar a si mesmo, de se impor aos caprichos individuais, às veleidades desordenadas, significa, portanto, uma regra de vida, uma consciência da necessidade livremente aceita, na medida em que é reconhecida como necessária para que um organismo social possa atingir o seu objetivo. ( FRANCO, 1986).

A escola deve e precisa assumir o papel de garantir as condições apropriadas ao processo ensino-aprendizagem, a partir da sua realidade, e, portanto das condições, das necessidades e do desenvolvimento dos alunos. Dessa forma, as expectativas da escola precisam estar consensuadas entre toda a comunidade escolar e não apenas pelos profissionais da educação. (GARCIA, 1999) A disciplina requer um aprendizado. Parafraseando Paulo Freire (1921 – 1997): Ninguém disciplina ninguém, mas por outro lado ninguém se disciplina sozinho. Os homens se disciplinam em conjunto, intermediados pela realidade do mundo.

A verdade é que a dinâmica da sociedade vai mudando com o tempo. A família mudou, e não mudou apenas porque quis. Muitos são os problemas nas famílias, mas é preciso compreender essas mudanças, para poder então estabelecer relacionamentos com a família e por extensão com o aluno. Mas a escola também mudou e o professor da mesma forma, porque a sociedade também mudou. Antes a escola tinha um maior valor social, o professor tinha um maior status, a escola tinha, portanto um maior apoio da família. O saber era mais centralizado, menos fragmentado e mais próximo da realidade de pelo menos quem podia permanecer por mais tempo na escola. Hoje, ao contrário, a fragmentação cultural e o desemprego, a crise ética, a economia recessiva baseada no capital e não na produção, a concentração de renda, a valorização do ter e não do ser são verdades presentes e atuais em nosso contexto, em nosso cotidiano.

Como conseqüência de tudo isso se precisa trabalhar mais, a dona de casa precisa ir para o mercado de trabalho, o stress, as preocupações criam uma brecha interna na família que lhe rouba o tempo de dar maior atenção aos filhos, acompanhar mais de perto seu desenvolvimento, promover a inculcação dos valores, enfim, de poder estar também mais próximo da escola, de se somar a ela na formação de seus filhos. Falta tempo, falta prioridade, falta motivação.

Um fator fundamental para a crise da disciplina na escola e na sala de aula está na queda do mito da ascensão social através da escola. Antes a escola também não era um espaço agradável, mas os alunos tinham a grande motivação de ser alguém na vida. Com a queda deste mito fica mais difícil conseguir um comportamento adequado do aluno, ainda que seja de passividade. (VASCONCELOS, 2000).

Convém destacar que a escola ainda está mal aparelhada para trabalhar com alunos indisciplinados tendo que tratar a questão de forma coletiva, sem singularidades, as quais requerem tratamentos diferenciados. (GARCIA, 1999). Os métodos mais tradicionais do exercício de controle comportamental sobre a conduta do aluno, apesar de se fazerem presentes no cotidiano das escolas, tem-se mostrado ineficazes quando aplicados a alunos que estão aprendendo a pensar criticamente e a contestar, principalmente no Ensino Médio, quando resulta em situações de conflito, ou quando os professores, coordenadores e diretores não gostam ou não estão preparados para lidar com alunos que recorrem a este tipo de expressão.

Por outro lado, a Lei de Diretrizes e Bases da Educação deseja que o aluno seja formado para ser capaz de exercer sua cidadania, refletindo e intervindo em sua realidade social. A escola é também a realidade social do aluno. Portanto a escola terá que se tornar um ambiente adequado, fundamentalmente humano e caloroso, capaz de agir como um elemento preventivo, o que se torna bastante difícil de praticar em uma sala de aula congestionada, onde conflitos interpessoais já se instalaram. Quando o professor entra em sala, não está entrando sozinho; com ele entram seus colegas, os funcionários, as regras determinadas pela escola, as vivências, enfim toda a instituição que naquele momento ele passa a representar, além da matéria que ele leciona. (…). Por isso, o problema da disciplina a ser implantada na escola não é exclusivo do professor, mas pelo contrário, de todo o conjunto de profissionais e da equipe escolar. (VASCONCELOS, 2000)

O que se percebe é que apesar deste quadro de indisciplina escolar, é notória a ausência de uma cultura disciplinar preventiva nas escolas, bem como a falta de preparo adequado por parte da comunidade escolar para lidar com os distúrbios de sala de aula, onde a indisciplina facilmente se expressa e que a própria escola pode estar ensinando e reforçando.(GARCIA, 1999).

Observa-se que freqüentemente o que ocorre é o jogo do empurra-empurra, onde a escola diz que a disciplina é função do professor, os professores dizem que a responsabilidade é dos pais que não dão limites aos filhos e estes que culpam a escola por não ter competência ou regras duras para resolver o problema.

Precisamos a partir da dialética ação-reflexão-ação, buscarmos a conscientização do novo sentido de disciplina e refletindo sobre a indisciplina, projetar para onde queremos ir, e a partir do desejo, do comprometimento, da vontade político-pedagógica de se construir algo novo, construir uma teoria que possa contribuir para o enfrentamento desta questão: a indisciplina.

É preciso que a escola se organize de tal forma que permita aos educadores forjarem uma vontade coletiva, um firme desejo e um inarredável compromisso político com a aprendizagem sólida e duradoura do aluno. ( FRANCO, 1986). A disciplina não está pronta, pois se trata de uma construção coletiva, de um aprendizado, de uma luta, de um trabalho efetivamente humanizador. Para tanto é necessário que haja a participação efetiva de todos no enfrentamento do problema, sem receitas, modelos ou verdades prontas e acabadas. Sem empurra-empurra, sem caça aos culpados.

Faz-se urgente e necessário provocar uma reflexão na comunidade escolar e familiar sobre este sério problema, de forma que se busque alternativas adaptadas à realidade de cada escola, de acordo com o projeto político pedagógico de cada uma delas. Tal diretriz deve incluir o desenvolvimento de orientações disciplinares claras e amplas, e que ganharão legitimidade à medida que são desenvolvidas com a participação dos estudantes, tornadas claras e conhecidas de toda a comunidade envolvida na escola (GARCIA, 1999). A participação dos alunos é um elemento importante, pois favorece o sentimento de pertença, e implica o exercício de algum grau de poder sobre as disposições coletivas, que é fundamental para a criação de um senso de responsabilidade comum e um elemento de motivação para os alunos. (D’ANTOLA, 1989b).

É importante ressaltar que a diretriz disciplinar adotada não deve se restringir a estabelecer um conjunto de normas que organizem o ambiente escolar apenas, mas deve também orientar a própria cultura daquilo que a comunidade deseja em termos de desenvolvimento disciplinar. Afinal, a disciplina deve ser também um objetivo do processo educacional (ABUD e ROMEU, 1989). Trata-se, portanto, de desenvolver políticas internas de dimensão preventiva, programas de formação continuada de professores, de forma a instrumentalizá-los para tratar destas questões voltadas para a indisciplina.

É preciso assumir a realidade, acreditar na possibilidade de mudança de comportamento, de postura, na transformação de uma realidade. Mudar o que precisa ser mudado, viabilizar a aprendizagem do respeito mútuo, do exercício de direitos e deveres e buscar de todas as formas a presença da família que grande contribuição pode dar na busca da disciplina na escola.

Referências:

1 ABUD, Maria; ROMEU, Sonia. A problemática da disciplina na escola: relato de experiência. In D’ANTOLA, Arlette (ORG.) Disciplina na escola. São Paulo: E.P.U., 1989. p. 79-90.

2 D’ANTOLA, Arlette (Org.) Disciplina democráica na escola. In D’ANTOLA, Arlette (Org.). Discilplina na escola. São Paulo: E.P.U, 1989b. p.49-59.

2 FRANCO, Luiz A. C. A disciplina na Escola. In Problemas de Educação Escolar. São Paulo: CENAFOR, 1986. p.13.

3 GARCIA, Joe. Indisciplina na Escola: Uma reflexão Sobre a Dimensão Preventiva. Artigo publicado na Revista Paranaense de Desenvolvimento, n. 95, Curitiba: 1999. P.101-108.

4 VASCONCELOS, Celso dos Santos. Disciplina: construção da disciplina consciente e interativa em sala de aula e na escola. São Paulo: Libertad, 2000.

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Iolando Meneses Santos, Engo. Químico pela UFS, especializado em Processamento Petroquímico pela UFBa/PETROBRAS, especialista em Didática do Ensiso Superior pela Pio Décimo e em Controle de Processos pela Pio Décimo. Engo. Químico da SERGAS e professor de Química de Petróleo da UNIT.
email: imsantos@oi.com.br

12 comentários no artigo “A INDISCIPLINA NAS ESCOLAS”

  1. Marília Nabuco on setembro 20th, 2009 at 20:18

    Bastante lúcido, realista, bem escrito, lógico e traduz a dura realidade da educação brasileira.PARABÉNS PROFESSOR.ÓTIMO ARTIGO!MARÍLIA NABUCO (colega de profissão).

  2. Estou como diretora de uma escola municipal, e achei muito interessante o artigo, porém busco algo mais concreto a respeito de como trabalhar a indisciplina, principalente nos reincendentes que abunsam do desrespeito a todos e também da violência gratuida aos colegas, provocações, brigas dentro e fora da escola com direito a filmagem e exposisão na internet. Estou assustada com a falta de controle destas situações, tenho buscado ajuda e esbarro nas leis (ECA) que defende os direitos das crianças, mas não abre diálogo para os deveres e punições. Agora com a lei que obriga o estudo do estatudo em sala de aula me preocupa que os mesmos se fortaleção mais ainda nas atitudes erradas, que não são definidas claramente na lei e que não tem punição de maneira alguma.

  3. sou pedagoga, e achei o texto interessante, porém o que percrdo é que estamos muito ligados a teorias que nossos professores ainda não acharam as praticas pedagogicas pra problemas como a indisciplina em sala de aula.

  4. SOU PROFESSORA DO 2º ANO PRIMARIO E ESTOU CURSASNDO PÓS GRADUAÇÃO EM PSICOPEDAGOGIA
    E AGORA É A HORA DA TÃO FALADA MONOGRAFIA ESTAMOS PESQUISANDO PARA ENTÃO DEPOIS MONTARMOS O TEXTO.
    O NOSSO TEMA É A INDISCIPLINA NO CONTEXTO ESCOLAR
    E ESTE TEXTO VAI NOS AJUDAR MUITO OBRIGADA. SEREI GRATA.

  5. Infelizmente o texto repete o mesmo velho discurso. Sempre abarrotando a escola de responsabilidades e ausentando a familia e os demais orgãos (juizado,promotoria,conselho tutelar, etc)de suas obrigações. Os professores estão ficando doentes (calo nas cordas vocais, labirintites, pressão alta, cardiopatias, depressão, sindrome do pânico)e quando podem abandonam a profissão. É necessário frequentar uma escola e lecionar em várias turmas do ensino fundamental e médio (matemática, portugues, biologia etc.)para ter real conhecimento de causa.

  6. elizabeth da costa on setembro 22nd, 2010 at 18:22

    Achei muito interessante o texto, porém não traz soluções para o problema. A pedagogia escolar está cheia de teorias, no entanto quando nos vemos com o problema de frente a coisa é bem diferente. Penso que a maioria das escolas fazem a sua parte. O problema estagna quando a escola precisa da ajuda da família. Por um lado essa mesma família está precisando de ajuda. Por outro, a escola muitas vezes não possui meios para ajudar. Falo de recursos humanos especializados como psicólogos e outros e recursos materiais. A minha escola é exemplo. Tenho alunos de familias desestruturadas, com baixíssima auto estima que precisariam ficar mais tempo na escola, para pelo menos amenizarmos o tempo de convivio de conflitos familiares e ajudarmos o desenvolvimento de valores que possam contribuir para o seu crescimento. No entanto, não temos espaço físico e recursos humanos para esse tipo de trabalho. Poderia escrever mais uma porção de fatores e possiveis soluções. O que realmente posso fazer é levar minha boa vontade e minha experiência para sala de aula e ajudar meus alunos no que eu puder.

  7. Valéria Gomes on novembro 24th, 2010 at 18:17

    Sou professora há 23 anos de uma escola privada e há seis leciono numa escola municipal do Recife. Duas realidades distintas, porém com o mesmo problema, a INDISCIPLINA.
    É desconfortável aceitar que o nosso país recebeu mais uma taça, motivo? “Indisciplina Estudantil”.
    O que nos conforta é termos a certeza de que pessoas, como Joe Garcia, Luiz Franco, Celso Vasconcelos… , estejam sempre buscando meios de colaborar com o corpo docente e com as famílias, apresentando meios de minimizar situações desagradáveis.
    E que os professores comprometidos com a educação podem beber dessa fonte.

  8. Ivone P. Vacheleski on fevereiro 6th, 2011 at 18:04

    Sou Orientadora Educacional em uma escola pública estadual por mais de 8 anos. Atuei também em outras funções, somando mais de 20 anos de experiência no magistério. Percebo que nos últimos anos há maior preocupação da comunidade escolar com relação a “Disciplina na escola”. A disciplina em função de conversas paralelas, dispersão em classe, alunos sem material escolar, uso de celular, de boné, mascação de chiclete, e agora,o uso do uniforme escolar. Dificultando ampliar discussões, leituras no coletivo que envolvam o assunto aprendizagem: defasagem na aprendizagem idade/série; parametros para aprovação,assim, sobrepondo a fiscalização do que não está sendo “cumprido” .Talvez a sociedade esteja menos preocupada com o ” como aprender melhor na escola,o que falta melhorar na educação e quais alternativas para priorizá-la”.
    Percebi que a maioria das bibliografias consultados no texto da autora são superiores a dez e vinte anos, porém contribuiram para fazer uma análise histórica do tema. Seria viável discutir e escrever mais sobre educação/ disciplina na atual conjuntura.

  9. Raque alves on junho 1st, 2011 at 18:45

    Sou coordenadora de um escola municipal de Itaguaí.Esse tema tem envolvido a comunidade escolar demais com debates e discussões de como usar uma prática pedagógica para resolver esses problemas em sala de aula. Os alunos da cada vez mais indisciplinados.

  10. OLÁ SOU PROFESSORA EM UMA ESCOLA PARTICULAR, BEM O QUE VEM AO CASO É QUE MUITOS PROFESSORES, ORIENTADORES, ENTRE OUTROS ACHAM QUE É POSSÍVEL ACABAR COM A INDISCIPLINA AMEAÇANDO OS ESTUDANTES, BOM EU ACHO QUE O CERTO SERIA NEM FALAR COM O ALUNA, MAS SIM CHAMÁ-LO PARA UMA CONVERSA PARTICULAR EM QUE O PROFESSOR POSSA VERIFICAR O PORQUÊ É QUE O ALUNO ESTÁ AGINDO DE MANEIRA ERRADA EM SALA DE AULA, O MELHOR JEITO DE SE DAR COM O ALUNO É CONVERSANDO PARA SABER QUAL É SUA EDUCAÇÃO EM CASA E COMO A ESCOLA PODE AJUDÁ-LO.

  11. Maria Lidiamar Cavalcante Costa on setembro 5th, 2011 at 6:38

    Realmente é um grande desafio lidar com a indisciplina.
    Mas acredito no professor,ele não desiste é cheio de esperança,muitos só precisam usar corretamente sua autoridade de professor,não se faz educação sem autoridade,o professor precisa gerenciar melhor os conflitos que os adolescentes levam para a sala de aula.
    Muitos professores precisam planejar meljor suas aulas,descobrir o que está por traz da indisciplina.

  12. José Sebastião Tito on setembro 29th, 2011 at 14:12

    Em uma situação que se possa colher respostas verdadeiras, pergunte a uma criança, adolescente e até mesmo adulto se gostam da ou de escola. Muito provavelmente a resposta será: eu odeio a escola. Porquê será? Pense, a resposta está diante dos seus olhos.

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