Análise de "A Metamorfose" de Kafka

A Metamorfose (de Kafka)
Franz Kafka foi um escritor tcheco de expressão alemã (1883-1924). Seus escritos e romances colocam em cena personagens entregues à estranheza, à solidão e à culpabilidade. “A Metamorfose” é uma de suas obras mais conhecidas.
Assim começa “A Metamorfose”:
“Uma manhã, depois de um sono intranquilo, Gregor Samsa despertou convertido em um monstruoso inseto. Estava deitado de costas para baixo sobre uma dura carapaça e, ao alçar a cabeça, viu seu ventre convexo e escuro, sulcado por calosidades curvas, sobre o qual quase não se mantinha o cobertor que estava a ponto de escorregar até o chão. Numerosas patas, penosamente delgadas em comparação com a grossura normal de suas pernas, agitavam-se sem concerto.” (tradução minha do primeiro parágrafo de uma versão em espanhol)
“A Metamorfose”, de Franz Kafka, classifica-se como uma novela de cunho social. Têm-se aqui, então, o gênero literário (novela) e o tema (social). Contendo não muito mais que vinte mil palavras, “A Metamorfose” é muito mais do que um conto, mas não chega a constituir um romance. O foco narrativo adotado pelo autor é o do “narrador onisciente”, o que pode ser observado na simples presença do verbo de elocução “pensar”, utilizado várias vezes, o qual não caberia a um suposto narrador em terceira pessoa objetiva ou subjetiva (estes são focos narrativos distintos do narrador onisciente). Quanto ao discurso, ao menos na tradução castelhana de “A Metamorfose”, é adotada a forma direta e convencional, em que o personagem fala, sem ser introduzido, e o narrador encarrega-se de esclarecer quem falou, como e por que falou, ou seja, tem-se a sequencia: travessão, fala do personagem, travessão e verbo de elocução.
O protagonista é Gregor Samsa, o qual trabalha como representante comercial para um armazém da cidade. Sua irmã Grete Samsa e seus pais são os personagens secundários. Ainda há o gerente do armazém, uma arrumadeira e três hospedes que tomam parte na novela.
Por se tratar de uma novela (e não de um romance mais rico em detalhes), “A Metamorfose” não traz seus personagens rigorosamente acabados. Kafka não se preocupou em descrever seus personagens em todas as suas características, isto é, físicas, intelectuais, psicológicas, morais e sociais. Afora o protagonista, os demais personagens não estão totalmente acabados. Gregor Samsa pode ser classificado como um personagem dito “redondo”, bem caracterizado. Quanto aos demais, somente por pura suposição pode-se chegar a uma caracterização mais completa, mas uma novela prescinde de tais detalhes, o que seria imprescindível num romance. Sendo assim, os personagens secundários são caracterizados como “planos”, com uma ou outra característica que não chega a dar uma visão mais completa.
O lugar em que se passa a história é a casa de Gregor Samsa. Seu quarto é o ambiente mais presente na narrativa, sendo nele que Gregor, depois de sua metamorfose, passa a maior parte do tempo. A época da ocorrência dos fatos não é especificada, não se sabendo em que ano ou século encontram-se os personagens. De qualquer forma, é anterior ao ano de 1924, ano do falecimento do próprio autor.
Já foi mencionado que o tema dessa novela de Kafka é de cunho social, mostrando, a despeito da terrível e desconcertante situação em que Gregor estava envolvido, as dificuldades advindas dessa metamorfose. Dificuldades a que estaria acometida sua família, pois Gregor era, até o momento da transformação, o único que trabalhava, sustentando sua irmã e seus pais. Disso, depreende-se, num primeiro momento, que o assunto predominante na novela seria “o indivíduo que um dia acordou de manhã e viu-se metamorfoseado em uma enorme barata”, porém, isso perde um pouco de força, e a ênfase é dirigida aos problemas oriundos de tal mudança e não mais à mudança em si mesma. Por um longo trecho da narrativa não se discute o porquê dessa metamorfose, ou se Gregor vai ou não voltar a ser um humano, ou ainda quanto tempo duraria sua vida enquanto inseto.
A mensagem que pode ser extraída dessa narrativa é notada somente se o leitor desviar sua atenção do estado em que se encontra Gregor Samsa. Deixando de lado o fato de que ele foi transformado em um inseto gigante, torna-se mais fácil perceber o que Kafka quis transmitir com sua narrativa. Vejamos, até o dia da metamorfose de Gregor, tão-somente ele trabalhava, arcando com todas as despesas da casa, e, ainda, tendo prometido à sua irmã enviá-la para estudar em um conservatório. Depois da transformação, tudo mudou. O pai, já velho, voltou a trabalhar. A mãe passou a costurar. A irmã também, com seus dezessete anos de idade, teve de arranjar um emprego. Até mesmo a casa dos Samsa não foi poupada, sendo transformada numa espécie de hospedaria, daí o surgimento, na narrativa, de três hóspedes como personagens “sub-secundários”. A mensagem seria, à primeira vista, o fato de que foi necessária a ocorrência de uma verdadeira desgraça na vida dos Samsa para que todos se mexessem.
Quanto ao tempo da narrativa, este é cronológico, ou seja, os fatos vão sendo descritos e narrados à medida que eles vão ocorrendo. A contagem do tempo é feita em horas, dias, semanas e em meses, porém, sem mencionar uma data precisa.
O enredo é que necessita de uma atenção mais especial, ainda mais em se tratando de Kafka. Enredo, vale lembrar, é o conjunto dos fatos de uma história. São dois os elementos que devem ser levados em conta no enredo da maioria das narrativas (tradicionais). São eles: verossimilhança e estrutura. O que torna um enredo apresentável e verdadeiro para o leitor é a lógica na qual ele se assenta. Mesmo sendo pura invenção do escritor, os fatos descritos devem possuir certa carga de credibilidade. Cada fato deve possuir um motivo para ter acontecido. Nada ocorre de graça, e um fato acaba gerando outro, ou seja, deve existir o “nexo causal”. Em suma, deve haver verossimilhança no enredo porque do contrário ele conteria falhas que não convenceriam o leitor. No que se refere à estrutura do enredo, as narrativas tradicionais devem conter início, meio e fim. É o que Aristóteles chamou de “energeia” (a atualização da potencialidade que existe no personagem e na situação). O romancista ou novelista deve mostrar os fatos passo a passo. Há narrativas que não possuem começo, embora tenham meio e fim, enquanto que em outras ocorre exatamente o contrário, possuindo começo, meio e ausência de fim.
Kafka iniciou sua novela com a seguinte oração: “Uma manhã, depois de um sono intranquilo, Gregor Samsa despertou convertido em um monstruoso inseto”. Ora, a teoria de Aristóteles, a qual se denomina “plano inclinado”, foi posta de lado. O plano inclinado idealizado por Aristóteles pode ser entendido como uma linha que se move da esquerda para a direita através de três inconfundíveis atos, rumo a um clímax, e culminado com um desenlace ou desfecho, o qual pode estar no último parágrafo, ou até mesmo na última frase. Em “A Metamorfose”, quem pode saber o “como” e o “porquê” de semelhante transformação. Kafka não o mostra, pois não é isso que importa em sua novela.
Ocorre que Kafka foi expressionista ao escrever “A Metamorfose”, trabalhando, inicialmente, não com situações realistas exteriores, mas sim, iniciando sua narrativa com uma situação expressionista interior, isto é, com um estado psicológico que ele transformou, elevando-o ao máximo. Daí resultou a metamorfose de Gregor Samsa, sem qualquer explicação.
A teoria aristotélica (de início, meio e fim) pode ser desdobrada em partes: exposição (introdução ou apresentação), complicação (desenvolvimento, contendo um ou mais conflitos), clímax e desfecho (desenlace ou conclusão). Inúmeros escritores seguem à risca essa sequencia. Franz Kafka não seguiu essa “norma” em sua novela, fato comprovado com a leitura do primeiro parágrafo. O leitor, que estiver acostumado com romances tradicionais, irá, sem dúvida, estranhar a forma como Kafka inicia sua narrativa, pois irá receber, de supetão, uma informação que vai além da imaginação, sem qualquer explicação anterior, ou, em linguagem mais vulgar, sem “preparo de terreno”.
“A Metamorfose” começa já na fase da complicação, saltando a exposição dos fatos. Aliás, pode-se perceber dois momentos em que a história apresenta conflito (complicação). O primeiro conflito é o que já foi mencionado, isto é, o momento em que Gregor Samsa acorda e percebe que foi transformado num inseto. O segundo conflito surge quando o inseto, no qual Gregor foi transformado, é visto pela primeira vez por seus familiares. Aí surge a expectativa acerca da reação que eles terão frente à nova aparência de Gregor Samsa. O clímax ocorre na parte da narrativa em que a irmã de Gregor, Grete Samsa, aconselha seus pais a livrarem-se do enorme inseto, pois já haviam tentado de tudo para ajudá-lo (suportá-lo seria mais conveniente dizer). A partir desse episódio, o leitor poderá encontrar-se na expectativa de um desfecho surpreendente, esperando algo realmente extraordinário. Algo como uma explicação lógica para a transformação de Gregor, ou mesmo seu retorno ao estado normal. O surpreendente é que isso não ocorre. Gregor Samsa não apenas continua sua sina como um repugnante inseto, como acaba morrendo nessa situação. A morte de Gregor, ainda metamorfoseado em inseto, de fome ou de desgosto, ocorre nas últimas páginas, não havendo explicação alguma acerca de como ele havia chegado à condição de um inseto. Enfim, sua família, sem a existência da criatura, fez o que jamais tinha feito antes. Sem mais problemas, cada qual tendo seu emprego (bons empregos, concluíram), saíram pai, mãe e filha, todos juntos para passear de trem (ou de ônibus, depende de quem traduz). A partir daí, o leitor comum não descobrirá nada mais de relevante, porém, uma mirada mais acurada no último parágrafo mostrará algo que merece reflexão, e talvez aí esteja implícita a mensagem maior que Kafka teve a intenção de mostrar.
“Enquanto falavam, o senhor e a senhora Samsa deram-se conta, quase ao mesmo tempo, de que sua filha, apesar de todas as preocupações que a fizeram perder a cor nos últimos tempos, havia crescido e se convertido numa linda jovem cheia de vida. Sem palavras, entendendo-se com o olhar, disseram-se um ao outro que já era hora de encontrar um bom marido para ela. E quando, ao chegar ao final do trajeto, a filha levantou-se antes deles e ergueu suas formas juvenis, pareceu corroborar com os novos projetos e as sãs intenções dos pais.”
(tradução minha do último parágrafo de uma versão em espanhol)
Fica claro a conotação de que nalguma época anterior, os Samsa também tinham projetos e boas intenções para com Gregor, e agora, depois da deprimente morte do filho, todas “as atenções” convergiriam para a filha.
Por fim, “A Metamorfose”, como já dito antes, é uma novela que dificilmente agradaria a leitores acostumados à leitura de narrativas tradicionais. Kafka rompeu com as formas mais “ortodoxas” de narrar e, em vista disso, muitos leitores decepcionar-se-iam com uma novela que não tem um começo (normal e completo), cujo final traz ainda um desenlace que, a bem da verdade, não desvenda mistério algum, deixando algumas perguntas sem resposta. Mas a novela tem seu mérito como uma narrativa fora do comum, típico de Kafka (o que é também encontrado nas obras de Allan Poe), e como forma de estudo das inúmeras possibilidades de narração. Obras há que não possuem enredo propriamente dito, outras há que não possuem personagens perfeitos e acabados, havendo também aquelas obras às quais um ou outro elemento (início, meio e fim) está faltando.

Por H. R. Cenci

http://hrcenci.blogspot.com

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